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Psicanálise: quando a pergunta deixa de ser sobre o outro.

  • Foto do escritor: Raquel Costa
    Raquel Costa
  • há 4 horas
  • 3 min de leitura

Por Raquel Silva Costa

Hoje no mercado saúde mental, encontramos uma grande diversidade de psicoterapias disponíveis. Essa pluralidade revela diferentes formas de compreender e lidar com o sofrimento humano.


Ao longo dos anos, observando essas abordagens e refletindo sobre suas propostas, torna-se possível perceber algumas diferenças fundamentais entre determinadas práticas psicoterapêuticas e o caminho proposto pela psicanálise.


Nas redes sociais, por exemplo, é muito comum encontrarmos afirmações como modo de encoragamento a busca por cuidado a saúde mental:

“É necessário se proteger da toxicidade das pessoas.”


Em determinados contextos, essa orientação pode fazer sentido. Estabelecer limites e reconhecer situações que provocam sofrimento é, para muitas pessoas, um passo importante no cuidado consigo mesmas.


Em diversas psicoterapias, grande parte do trabalho consiste justamente em ajudar o indivíduo a identificar o que lhe causa angústia e construir barreiras de proteção. A partir disso, a pessoa aprende a estabelecer limites, afastar-se ou bloquear aquilo que gera desconforto. Isso e ótimo inicio para que esta em sofrimento psíquico.


No entanto, a experiência humana muitas vezes mostra algo mais complexo.


Com frequência, o sujeito acaba se reencontrando com situações semelhantes ao longo da vida. O mesmo tipo de conflito pode reaparecer em diferentes contextos: nas relações amorosas, profissionais, familiares ou sociais.


Quando o comportamento é tratado apenas como algo a ser eliminado ou evitado, aquilo que foi reprimido pode retornar de outras formas, buscando novos caminhos de expressão.


É nesse ponto que a psicanálise propõe um deslocamento importante.

Em vez de focar apenas no afastamento do que causa sofrimento, a psicanálise volta o olhar para as representações internas e para as diversas formas pelas quais o sujeito se comunica.


Muito do que aparece em análise se manifesta através da fala, mas também através de atos, lapsos, contradições e repetições. O inconsciente encontra caminhos próprios para se expressar.

Quando alguém decide iniciar uma análise, entra em um processo que muitas vezes envolve questionar e desconstruir certezas sobre si mesmo. Esse movimento pode ser desafiador, pois frequentemente é mais fácil enxergarmos no outro aquilo que também está presente em nós.

Ao longo desse percurso, o sujeito começa a dialogar com seu próprio inconsciente e, pouco a pouco, pode perceber que algumas experiências que ultrapassaram seus limites também envolvem sua própria participação psíquica.

É nesse momento que surge uma pergunta fundamental:

“Por que eu permiti?”


Essa pergunta não possui uma resposta pronta. Ela precisa ser construída pelo próprio sujeito.


Em muitos casos, a resposta encontra resistências internas, pois pode provocar desconforto e exigir uma reorganização da maneira como o indivíduo compreende sua própria história.


Mas é justamente nesse espaço que a psicanálise opera: abrindo lugar para que as perguntas possam existir e serem elaboradas e a resposta não jugadas.


Vivemos, além disso, em uma sociedade que frequentemente impõe padrões de comportamento, sucesso e felicidade que nem sempre correspondem à complexidade da experiência humana. Esses modelos muitas vezes criam expectativas difíceis de alcançar e podem reforçar sentimentos de inadequação.


A psicanálise não busca adaptar o sujeito a esses padrões.


Ao contrário, ela convida o sujeito a compreender como essas exigências externas se inscrevem em sua história psíquica e como ele pode se posicionar diante delas.

No final das contas, o movimento analítico desloca o foco.


A pergunta deixa de ser apenas sobre o outro e passa a incluir o próprio sujeito.

Questionamos o outro porque o outro faz o que sabe e, às vezes, nem sabe.


Questionar a si mesmo, por sua vez, pode abrir um caminho mais livre: o caminho de descobrir as próprias respostas, assumir a possibilidade de falhar, aprender com a experiência e construir uma relação mais consciente consigo mesmo.


Esse é um dos caminhos que a psicanálise oferece.



 
 
 

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