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A angústia nossa de cada dia.

  • Foto do escritor: Raquel Costa
    Raquel Costa
  • há 5 horas
  • 2 min de leitura

No enquanto seres humanos, vivemos  por dentro  um dilema constante. Há sempre um pequeno campo de escolhas: às vezes é a fome e as possibilidades de alimento; às vezes é o corpo pedindo algo e a mente tentando decidir. E, então, surge a pergunta silenciosa: qual opção, agora, me fará sentir satisfeito?Esse gesto simples, tão biológico quanto cotidiano, pode alterar nosso estado de bem-estar.


Por isso, poderíamos dizer que certos reflexos do corpo aliviam, ainda que minimamente, a angústia. Mas quando nos aproximamos do tema biologicamente  de como o organismo regula sensações e escolhas o outro fica de fora, porque esse movimento pertence ao que é constitutivo do próprio sujeito: é uma resposta íntima, quase automática, que organiza o dentro.


Quando trago isso para o campo da psicanálise, a cena muda, mas a lógica permanece: o que parecia apenas “preferência” pode ser, na verdade, um modo de evitar algo.Em sessão, alguém poderia chegar com uma fala como:“Eu não gosto do cheiro de fritura, por isso não faço frituras para não deixar o cheiro impregnado na minha casa.”


Se questionada sobre o que come, essa mesma pessoa pode dizer que se alimenta desse tipo de comida, e até gosta muito. É aqui que o olhar do analista se volta para o sujeito: para sua história, para suas impressões, para o ambiente em que seus relatos acontecem no caso, a própria casa.


Esse é um exemplo da angústia nossa de cada dia: algo que regula o sujeito para que ele não precise enfrentar a angústia de entrar em casa e sentir o cheiro da fritura. Mesmo podendo usar um perfume, um incenso, ou algum recurso que “resolva” a questão do odor, o inconsciente trabalha de formas inimagináveis para conservar o sintoma.

Porque o sujeito poderia, por exemplo, ir a algum lugar, comer com amigos, e voltar para casa com o cheiro impregnado na roupa. Aqui falamos do cheiro de fritura  mas poderia ser qualquer outro. O ponto é que o inconsciente orienta o caminho de um modo tal que, às vezes, nem um banho parece limpar.


E, ainda assim, a casa poderia demorar um pouco mais.

Para algumas pessoas, isso pode ser um fator interno: um conflito que mascara uma marca íntima. E é justamente aí que a análise tem lugar  não para corrigir o comportamento, nem para ensinar como viver, mas para abrir espaço para elaboração.Quando esse ponto é trabalhado em análise, o sujeito pode ganhar outra qualidade de vida: entender de onde vem o sintoma e como prosseguir a partir desse ponto.



 
 
 

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